Um portátil recondicionado vendido por uma loja portuguesa tem, por lei, três anos de garantia — os mesmos de um portátil novo — desde que a palavra “recondicionado” conste da fatura. Custa tipicamente metade de um equivalente novo, e o grosso da oferta em Portugal são máquinas empresariais (HP EliteBook, Dell Latitude, Lenovo ThinkPad) que valem mais do que um portátil novo de gama baixa ao mesmo preço. Há três armadilhas que quase ninguém lhe conta: os modelos mais baratos têm processadores demasiado antigos para o Windows 11, o teclado raramente é português, e várias lojas excluem a bateria da garantia. Este guia compara doze lojas que vendem em Portugal, com preços verificados a 10 de setembro de 2026.
Em resumo
- Garantia: 3 anos. Qualquer bem vendido como “recondicionado” por um profissional em Portugal tem a garantia legal completa (Decreto-Lei n.º 84/2021, artigo 12.º). As lojas que anunciam “2 anos” ou que excluem a bateria estão a anunciar menos do que a lei obriga.
- A regra mais importante: 8.ª geração Intel ou superior. O Windows 10 deixou de ter suporte a 14 de outubro de 2025. Um portátil com processador de 6.ª ou 7.ª geração — que é o que se encontra abaixo dos 230 € — não pode instalar oficialmente o Windows 11. Procure modelos com processador i5-8xxx, i7-8xxx ou mais recente.
- O teclado é o problema silencioso. Numa das maiores lojas do sector, de 760 portáteis recondicionados em stock, apenas 13 tinham teclado português — cerca de 1,7%. Confirme sempre “Teclado PT” antes de pagar.
- As lojas portuguesas são mais baratas do que os marketplaces internacionais. O mesmo HP EliteBook 840 G8 (i5, 8 GB, 256 GB) custava 299,90 € numa loja do Porto e 446 € no Back Market no estado mais baixo — 49% mais caro. Compare sempre pelo menos três lojas.
- Ignore os “preços riscados”. O mesmo MacBook Air M1 aparece com preço de referência de 1.129 € numa loja e 738 € noutra. São preços de lançamento, não preços atuais. A DECO PROteste já sinalizou esta prática.
- Nem tudo compensa. Um iPad de 9.ª geração recondicionado poupa cerca de metade; um iPad de 10.ª geração aparece a 570 € contra 619 € em novo — 8%, que não justifica abdicar de um produto novo.
Onde comprar: as doze lojas comparadas
A tabela seguinte reúne o que cada loja publica nas suas próprias condições, verificado a 10 de setembro de 2026. Onde diz “não publica”, a loja simplesmente não divulga a informação — o que, por si só, é um dado a ter em conta.
| Loja | Garantia anunciada | Estados / graus | Devolução | Teclado PT |
|---|---|---|---|---|
| Worten (Flippers) | 3 anos | Como Novo (A), Marcas Mínimas (B), Sinais de Uso (C) | 14 dias (legal) | Sim, stock próprio |
| Fnac Restart | 3 anos | Grade A, B, C | 14 dias (legal) | Sim, stock próprio |
| Onbit | 3 anos, mas bateria e carregador só 6 meses | Não publica definições | Não publica | “Internacional com adaptação a PT” |
| InfoComputer | 2 anos — abaixo do que a lei exige | Não publica definições | 30 dias | Raro (ver abaixo) |
| BuyBack | 3 anos recondicionados / 18 meses usados | Não publica definições | Não publica | Sim, anunciado |
| EcoPC | “Até 3 anos” (+1 ano por ~30 €) | Não publica definições | 30 dias de teste | Não publica |
| Mister PC | 3 anos | Não publica definições | Não publica | Sim, “teclado PT original” |
| iServices | 36 meses | Bom, Muito Bom, Excelente | Não publica | Não publica |
| Back Market | 24 meses comercial (+ garantia legal) | Correto, Bom, Excelente, Premium | 30 dias | Varia por unidade — verificar |
| refurbed | Mínimo 12 meses comercial (+ legal) | Bom, Muito Bom, Excelente, Premium | 30 dias | Varia por unidade |
| Tek4life | 18 meses (artigos usados) | Não publica definições | Não publica | Não publica |
| GreenFever | Não publica | A+, A, A−, B, Outlet | Só revenda | Sim |
Duas notas antes de avançar. A GreenFever é um canal de revenda: os preços só aparecem depois de registo como revendedor, portanto não serve a um consumidor. E a PCDiga, que também vende recondicionados e aparece bem posicionada nas pesquisas, bloqueia o acesso automático às suas páginas de garantia — não conseguimos verificar as condições e por isso não a incluímos na tabela. A sua reputação, essa, é das melhores do sector (ver a secção de reputação, mais abaixo).
O que é um portátil recondicionado (e o que não é)
A palavra tem definição legal em Portugal. O Decreto-Lei n.º 84/2021 diz, no artigo 2.º, que bens recondicionados são “bens que foram objeto de utilização prévia ou devolução e que, após inspeção, preparação, verificação e testagem por um profissional, são novamente colocados para venda no mercado nessa qualidade”. Houve uso anterior, houve intervenção profissional, e o bem é vendido declaradamente como recondicionado — é essa última parte que faz a diferença na fatura e na garantia.
No caso dos computadores, o processo típico é diferente do dos telemóveis. A máquina raramente vem de um particular: vem de uma renovação de parque informático de uma empresa, normalmente ao fim de três ou quatro anos de contrato de leasing. É apagada, recebe uma instalação limpa do Windows, é testada e classificada esteticamente, e componentes de desgaste (bateria, teclado, tampa) podem ser substituídos. A Fnac diz que um técnico demora “cerca de 20 minutos” por equipamento — mas “90 minutos a 3 dias” quando é um MacBook.
Convém distinguir de três coisas parecidas que se vendem lado a lado:
- Usado ou “em segunda mão” — vendido tal como está. Se o vendedor for um profissional, a lei permite reduzir a garantia para 18 meses, mas só por acordo expresso; se for um particular (OLX, Vinted), não há garantia legal nem direito de devolução.
- “Open box” ou caixa aberta — devolvido pelo primeiro comprador dentro dos 14 dias, praticamente sem uso. É a melhor compra do lote quando aparece, porque a máquina é nova em tudo menos no selo.
- Recondicionado pelo fabricante — a Apple mantém uma loja de recondicionados certificados em Espanha, com um ano de garantia e descontos até 15%, mas não entrega em Portugal. Não existe programa equivalente da HP, Dell ou Lenovo para consumidores portugueses.
Que garantia tem, afinal?
Três anos, e a fatura é a prova
O artigo 12.º do Decreto-Lei n.º 84/2021 dá três anos de garantia a qualquer bem móvel vendido por um profissional. O número 3 desse artigo abre uma exceção: em bens usados, comprador e vendedor podem acordar reduzir o prazo, com o mínimo de 18 meses. Mas essa redução não se aplica quando o bem é vendido como recondicionado — e para isso a menção tem de constar da fatura.
A DECO PROteste confirma a leitura e acrescenta a parte prática: nos primeiros dois anos presume-se que qualquer avaria já existia no momento da entrega, e é a loja que tem de provar o contrário (artigo 13.º). No terceiro ano a presunção inverte-se e é o consumidor que tem de demonstrar que o defeito é de origem. Há ainda o artigo 16.º: nos primeiros 30 dias, perante um defeito, pode exigir logo a substituição ou o reembolso, sem passar pela reparação.
Antes de fechar a compra, verifique isto na fatura. A palavra “recondicionado” tem de lá estar, associada ao artigo. Se a fatura disser apenas “usado”, “seminovo” ou “Grade A”, a loja pode mais tarde argumentar que se aplicam 18 meses e não três anos. É um pedido razoável e legítimo — peça por escrito antes de pagar.
As lojas que anunciam menos do que a lei obriga
Ao percorrer as condições publicadas encontrámos três padrões que merecem atenção. Não são necessariamente ilegais — algumas dependem de como o artigo é faturado — mas convém saber que existem antes de comprar:
- Garantia mais curta do que três anos. A InfoComputer publica “dois anos” para portáteis e desktops recondicionados. A EcoPC anuncia “até 3 anos” — e vende uma extensão paga de mais um ano por cerca de 30 €, o que sugere que o prazo base nem sempre é de três anos.
- Bateria excluída. A InfoComputer exclui baterias e carregadores da garantia, classificando-os como “consumível”. A Onbit dá-lhes seis meses contra um cabeçalho de três anos. A BuyBack exclui genericamente “artigos consumíveis”.
- Prazos de reclamação apertados. A InfoComputer exige que defeitos de qualidade sejam comunicados em sete dias após a receção.
Em contrapartida, a BuyBack é a loja que aplica a lei de forma mais transparente: distingue explicitamente “Produtos Recondicionados — 3 anos” de “Produtos Usados — 18 meses” nas suas condições. É exatamente a distinção do artigo 12.º n.º 3, escrita como deve ser.
Uma cláusula contratual não afasta a garantia legal de um bem faturado como recondicionado. Se a bateria falhar dentro do prazo e a loja recusar, tem o Livro de Reclamações eletrónico e os centros de arbitragem de consumo. Dito isto, é bem mais simples escolher, à partida, uma loja que não escreva isso nas condições.
Preços reais em setembro de 2026
Estes são preços que estavam efetivamente em loja a 10 de setembro de 2026. Repare na dispersão: não há “o preço” de um modelo recondicionado, há uma janela de várias centenas de euros para a mesma máquina.
| Modelo | Configuração | Loja | Preço |
|---|---|---|---|
| HP EliteBook 840 G3 | i5-6200U, 8 GB, 240 GB | Onbit | 179,90 € |
| HP EliteBook 840 G5 | i5-8250U, 8 GB, 256 GB | InfoComputer | 279,89 € |
| Lenovo ThinkPad T480 | i5-8350U, 8 GB, 256 GB | InfoComputer | 289,30 € |
| Dell Latitude 5400 | i5-8365U, 8 GB, 256 GB | InfoComputer | 275,64 € |
| Lenovo ThinkPad T490s | i5-8365U, 16 GB, 256 GB | Onbit | 299,90 € |
| HP EliteBook 840 G8 | i5-1135G7, 8 GB, 256 GB | Onbit | 299,90 € |
| HP EliteBook 840 G8 | i5-1135G7, 8 GB, 256 GB, estado “Correto” | Back Market | 446,00 € |
| HP EliteBook 840 G8 | i5-1135G7, 16 GB, 256 GB, Win 11 Pro | Onbit | 349,90 € |
| Lenovo ThinkPad L14 Gen 2 | i5-1135G7 | refurbed | 308,99 € |
| Lenovo ThinkPad X1 Carbon G6 | i5-8350U, touch | EcoPC | 303,99 € |
| Dell Latitude 7410 | i7-10610U, 14″ | refurbed | 360,99 € |
| HP Chromebook X360 11 G2 | Celeron N4000, 11″ | EcoPC | 113,99 € |
| MacBook Air M1 (2020) | 8 GB, 256 GB | refurbed | 577,99 € |
| MacBook Air M1 (2020) | 8 GB, 256 GB, estado “Correto” | Back Market | 695,00 € |
| MacBook Air M2 (2022) | desde | Back Market | 866,00 € |
| MacBook Pro 14″ M1 Pro (2021) | — | refurbed | 985,99 € |
| iPad 9.ª geração (2021) | 64 GB, Wi-Fi, estado “Correto” | Back Market | 216,00 € |
| iPad 10.ª geração (2022) | 64 GB, Wi-Fi | Back Market | 570,00 € |
O mesmo portátil, 146 € de diferença
Vale a pena olhar duas vezes para as duas linhas a negrito. É o mesmo modelo, na mesma configuração: HP EliteBook 840 G8, i5-1135G7, 8 GB de RAM, 256 GB de SSD. Na Onbit, uma loja portuguesa, custava 299,90 €. No Back Market, no estado mais baixo da escala (“Correto”), custava 446 € — quase 50% mais. E o estado “Excelente” do mesmo modelo ia aos 546,56 €.
Isto não é um acaso pontual. É a consequência de um facto estrutural: o mercado português de recondicionados é dominado por stock empresarial que as lojas nacionais compram diretamente, enquanto os marketplaces internacionais acrescentam a margem do vendedor terceiro e a sua própria comissão. Para máquinas ex-empresariais — que são a maioria da oferta — vale sempre a pena consultar as lojas portuguesas antes dos marketplaces. Para Apple, a relação inverte-se com frequência: o MacBook Air M1 estava a 577,99 € na refurbed contra 695 € no Back Market.
Porque não usamos percentagens de poupança
Reparará que esta tabela não tem coluna “poupa X%”. É deliberado. O mesmo MacBook Air M1 aparece com um preço de referência de 1.129 € numa loja e de 738 € noutra — 391 € de diferença no mesmo suposto “preço em novo”. São preços de lançamento, de 2020, e não o que a máquina custaria hoje.
A DECO PROteste sinalizou exatamente esta prática em janeiro de 2025, citando uma investigação da congénere belga Test-Achats que encontrou aparelhos recondicionados vendidos como “como novos” com defeitos significativos e poupanças calculadas sobre preços originais em vez de preços de mercado atuais. A associação defende regras europeias uniformes: uma definição legal de “recondicionado”, uma classificação de estados verificável, e a divulgação obrigatória das reparações feitas e das peças usadas. Essas regras ainda não existem.
A forma honesta de avaliar uma poupança é ir ver quanto custa hoje, em novo, uma máquina com desempenho equivalente. Um EliteBook 840 G8 a 299,90 € compara-se com um portátil novo de 400 € a 500 € — e ganha em construção, teclado, ecrã e portas. Não se compara com o preço a que a HP o vendia às empresas em 2021.
A regra da 8.ª geração: o erro mais caro que pode cometer
Esta é, de longe, a informação mais valiosa deste guia, e é a que falta em todas as páginas de categoria das lojas.
O Windows 10 deixou de ter suporte a 14 de outubro de 2025. A Microsoft já não fornece atualizações de funcionalidades nem, em regra, atualizações de segurança. Existe um programa de segurança alargada (ESU) que estende as atualizações críticas até 12 de outubro de 2027 — e no Espaço Económico Europeu, Portugal incluído, a adesão é gratuita desde que mantenha a sessão iniciada com uma conta Microsoft no equipamento. Se ficar mais de 60 dias sem essa sessão, a cobertura cessa e tem de voltar a inscrever-se.
Ou seja: um portátil que só corra Windows 10 tem pouco mais de um ano de segurança pela frente. E é aqui que está a armadilha, porque o Windows 11 tem uma lista fechada de processadores suportados. Do lado Intel, a geração mais antiga suportada é a 8.ª.
A regra prática: olhe para o número do processador. Um i5-8250U, i5-8365U ou i7-8550U é 8.ª geração e instala Windows 11. Um i5-6200U ou i7-7500U é 6.ª ou 7.ª geração e não instala. Os quatro dígitos a seguir ao traço começam pelo número da geração.
Aplicando isto ao stock realmente à venda em Portugal hoje, o resultado é desconfortável. Aquele EliteBook 840 G3 a 179,90 €, o EliteBook 850 G3 a 229,90 €, o Surface Pro 5 a 229,90 € — todos de 6.ª ou 7.ª geração, todos sem caminho oficial para o Windows 11. Toda a faixa abaixo dos 230 € do mercado português é, na prática, stock que fica preso num sistema operativo em fim de vida.
A diferença de preço para uma máquina de 8.ª geração é de 50 € a 100 €. É o melhor dinheiro que vai gastar nesta compra. Se o orçamento não estiver lá, a alternativa honesta é instalar uma distribuição Linux leve (o Linux Mint ou o Zorin OS correm bem em máquinas destas) ou aceitar que está a comprar uma máquina com prazo de validade curto — o que pode ser perfeitamente razoável para uso secundário sem dados sensíveis.
A DECO PROteste faz um aviso complementar que vale a pena reter: cuidado com o “Windows recente, máquina antiga”. Um portátil empresarial de sete anos pode tecnicamente correr um sistema atual e mesmo assim ser “excessivamente lento” no dia a dia. As especificações mínimas que a associação recomenda são 8 GB de RAM, 256 GB de SSD, Wi-Fi AC e ecrã Full HD com 250 nits.
O teclado português: 13 em 760
Este é o problema que mais estraga a experiência e o que menos aparece escrito. Os portáteis empresariais que abastecem o mercado português vêm de parques informáticos de toda a Europa — e o teclado vem com eles.
O filtro de stock da InfoComputer, consultado a 10 de setembro de 2026, dá o número exato: 13 portáteis com teclado português, 145 com teclado espanhol e 602 com teclado internacional. De 760 máquinas, 1,7% têm teclado PT. Não é uma loja atípica — é o mercado.
Na prática, um teclado espanhol troca-lhe o “ç” pelo “ñ” e desloca vários símbolos; um teclado internacional (US) não tem “ç” nem acentos diretos. Escrever português nele é possível — muda-se a disposição no Windows — mas fica a escrever às cegas, com as teclas a dizerem uma coisa e a produzirem outra.
Repare também nas formulações. A Onbit descreve os seus como “Internacional com adaptação para layout Português (PT)” — ou seja, um teclado internacional adaptado, tipicamente com autocolantes ou teclas trocadas, e não um teclado português de origem. A Mister PC especifica em algumas fichas “teclado PT original”, que é coisa diferente. E no Back Market o layout varia de unidade para unidade: encontrámos na loja portuguesa fichas com “QWERTY – Português” e, na mesma categoria, um MacBook Air com “QWERTY – Italiano”.
- Se escreve muito em português, filtre por teclado PT e aceite pagar mais. Vale a pena.
- Se programa ou escreve sobretudo em inglês, um teclado internacional pode até ser preferível.
- Nunca assuma. Se a ficha não diz, pergunte por escrito antes de comprar. É informação pré-contratual e a loja é obrigada a prestá-la.
Porque é que um ex-empresarial vale mais do que um novo barato
HP EliteBook e ProBook, Dell Latitude, Lenovo ThinkPad: são estas três famílias que dominam a oferta portuguesa, e é útil perceber porquê são boa compra. São máquinas concebidas para uso intensivo durante anos num contexto profissional, com um conjunto de características que os portáteis de consumo do mesmo preço não têm:
- Construção em ligas de magnésio ou alumínio, com testes de queda e de ambiente, em vez de plástico flexível.
- Teclados de curso longo, retroiluminados, muito acima de qualquer portátil novo de 400 €.
- Portas a sério: HDMI, USB-A, leitor de cartões, muitas vezes RJ45, e carregamento por USB-C.
- Componentes substituíveis — RAM e SSD acessíveis em boa parte dos modelos, o que permite passar de 8 para 16 GB por 30 € a 40 € e prolongar a vida da máquina.
- Manuais de serviço públicos e peças abundantes, porque foram vendidos aos milhões.
O contraponto honesto: são máquinas pesadas para o padrão de 2026, com ecrãs que raramente brilham (procure os 250 nits que a DECO recomenda), autonomia inferior à de origem por causa da bateria, e gráficos integrados que não servem para jogos nem para edição de vídeo pesada. Para escritório, estudo, navegação e videochamadas, são excelentes. Para jogar, não.
Bateria: o que cada loja garante mesmo
A bateria é a peça que envelhece independentemente do cuidado do dono anterior, e é onde as promessas são mais vagas. O panorama a 10 de setembro de 2026:
- Back Market — garante um mínimo de 85% da capacidade inicial, mas essa política está escrita para MacBooks. Para portáteis Windows não publica um mínimo.
- refurbed — o estado Premium garante 90% ou mais; os restantes garantem 85% para smartphones e apenas 80% para os outros dispositivos, portáteis incluídos. É importante ler bem: o mesmo rótulo de estado significa coisas diferentes consoante o tipo de produto.
- BuyBack — não promete percentagem, promete autonomia: “pelo menos 60 minutos”. É uma métrica honesta mas modesta.
- Onbit — “testada e garantida para boa autonomia”, sem número, e com garantia de seis meses.
- Worten, Fnac Restart, EcoPC, Mister PC, iServices, InfoComputer — nenhuma publica um mínimo de saúde de bateria para portáteis.
Uma bateria de substituição para um EliteBook ou um ThinkPad custa 40 € a 70 € e troca-se em minutos na maioria dos modelos empresariais — muitos ainda têm bateria removível ou de acesso simples. Num MacBook, a mesma operação anda pelos 150 € a 200 €. Isto muda o cálculo: num portátil Windows empresarial, a bateria é um consumível barato e não deve pesar muito na decisão; num MacBook recondicionado, exija a percentagem por escrito.
Quando receber a máquina, confirme no imediato. No Windows, abra a linha de comandos e execute powercfg /batteryreport: gera um ficheiro HTML que compara a capacidade atual com a de fábrica e conta os ciclos. Num Mac, veja em Definições do Sistema › Bateria › Estado da bateria. Se o resultado for muito abaixo do anunciado, está dentro dos 14 dias para devolver sem justificação.
O Windows está mesmo licenciado?
Quase todas as lojas anunciam “Windows 11 Pro licenciado”, mas nenhuma diz que tipo de licença. Existe um programa específico para isto: o Microsoft Authorized Refurbisher (MAR), que fornece a licença “Windows for Refurbished PCs”, distinta tanto da licença OEM de um computador novo como das licenças de volume empresariais.
Como verificar, sem ser técnico:
- Em Definições › Sistema › Ativação, deve ler “O Windows está ativado com uma licença digital associada à sua conta Microsoft” ou equivalente. Se disser que não está ativado, ou pedir uma chave, devolva.
- Numa máquina entregue com Windows 10, procure o autocolante COA com a menção “For use on a Refurbished PC – No Commercial Value”. É o sinal de uma licença MAR legítima.
- Numa máquina com Windows 11, a ausência de autocolante não é um problema: a Microsoft deixou de emitir etiquetas COA para recondicionados em julho de 2021 e passou a licenças digitais.
Se a máquina chegar com o Windows por ativar e a loja lhe enviar uma chave por email de proveniência duvidosa, tem aí um bem desconforme e pode exigir a resolução do contrato.
Reputação das lojas: os números públicos
O Portal da Queixa publica um índice de satisfação por marca, calculado sobre as reclamações dos últimos doze meses. Vale como sinal — mede quem reclama, não a totalidade dos clientes — mas as diferenças aqui são grandes demais para ignorar.
| Loja | Índice de satisfação | Classificação | Taxa de solução |
|---|---|---|---|
| PCDiga | 77,6 / 100 | Ótimo | 99,2% |
| iServices | 77,0 / 100 | Ótimo | 94,3% |
| Tek4life | 54,6 / 100 | Razoável | 81,3% |
| Onbit | 38,6 / 100 | Fraco | 47,1% |
| Back Market | 19,6 / 100 | Fraco | 24,3% |
Há aqui uma tensão que vale a pena assumir em vez de esconder. A Onbit tinha os melhores preços que encontrámos e um índice de 38,6 com quase metade das reclamações por resolver. O Back Market tem a maior escolha do mercado e o pior índice da tabela — em parte porque é um marketplace e a resposta depende de centenas de vendedores diferentes, o que é precisamente o risco de comprar num marketplace. A leitura razoável: quanto mais barato e mais impessoal for o canal, mais importa que a máquina chegue bem à primeira, porque o pós-venda vai ser trabalhoso.
Se a prioridade é ter alguém a atender o telefone quando algo corre mal, a PCDiga, a iServices, a Worten e a Fnac são canais com estrutura de apoio a sério — e as duas últimas com três anos de garantia sobre stock próprio.
Checklist antes de pagar
- Processador de 8.ª geração ou superior (i5-8xxx / i7-8xxx / 11xx / 12xx…). Sem isto, não há Windows 11.
- 8 GB de RAM e 256 GB de SSD, no mínimo. Confirme se a RAM é expansível.
- Teclado português — pergunte por escrito se a ficha não disser.
- Ecrã Full HD (1920×1080). Muitos ex-empresariais baratos ainda são 1366×768: fuja.
- Estado da bateria por escrito, em percentagem ou em ciclos.
- Windows ativado e o tipo de licença.
- Carregador incluído — confirme, não é universal.
- A fatura tem de dizer “recondicionado”. É o que lhe dá os três anos.
- Compare pelo menos três lojas pelo modelo exato, incluindo uma loja portuguesa e um marketplace.
- Teste tudo nos primeiros 14 dias: teclas todas, portas todas, câmara, som, Wi-Fi, e o relatório de bateria.
Onde não comprar
- A particulares no OLX, Facebook Marketplace ou Vinted. Sem fatura não há garantia legal nem direito de devolução, e um portátil não tem IMEI que permita verificar a proveniência. Se o fizer, teste presencialmente e peça a fatura de compra original.
- Nas secções de marketplace de grandes lojas sem verificar quem vende. Na Worten e na Fnac, o stock próprio (Flippers, Restart) tem três anos e responde a loja; o stock de vendedores terceiros na mesma página segue as condições do vendedor. Veja sempre a linha “vendido e expedido por”.
- Em lojas sem morada, NIF e Livro de Reclamações eletrónico visíveis. É informação obrigatória por lei em qualquer site de comércio eletrónico português.
- Em canais de revenda como a GreenFever, que exigem registo como revendedor. Não é fraude nenhuma — simplesmente não é um canal de consumidor, e não terá as proteções de uma venda a consumidor.
E os iPads e MacBooks?
Merecem uma nota à parte porque a lógica é diferente. Nos MacBooks, o recondicionado é quase sempre boa compra: um MacBook Air M1 a 577,99 € continua a ser uma máquina rápida, silenciosa e com dez horas de autonomia real, e a Apple mantém o suporte de software durante muitos anos. A ressalva é a bateria, cuja substituição é cara, e o facto de a Apple não vender recondicionados certificados para Portugal — o que empurra tudo para os marketplaces.
Nos iPads, a conta muda com a geração. O iPad de 9.ª geração a 216 € contra um preço de referência de 429 € é uma poupança real de cerca de metade. Mas o iPad de 10.ª geração aparecia a 570 € recondicionado contra 619 € que a própria loja indicava como preço em novo: 8% de desconto para abdicar de um produto novo não faz sentido. A regra é simples — em tablets, o recondicionado só compensa a partir de uma geração de distância.
Perguntas frequentes
Um portátil recondicionado tem garantia em Portugal?
Sim, três anos. O Decreto-Lei n.º 84/2021, artigo 12.º, dá a garantia legal completa a qualquer bem vendido por um profissional, e a redução para 18 meses permitida em bens usados não se aplica quando o bem é vendido como recondicionado. Para isso, a palavra “recondicionado” tem de constar da fatura. Nos primeiros dois anos presume-se que a avaria já existia na entrega; no terceiro ano cabe ao consumidor prová-lo.
Vale a pena comprar um portátil recondicionado?
Para uso de escritório, estudo, navegação e videochamadas, sim. Um portátil empresarial recondicionado de 300 € tem melhor construção, teclado, ecrã e portas do que um portátil novo de 400 € a 500 €. Não compensa para jogos nem para edição de vídeo, porque estas máquinas têm gráficos integrados. E não compensa se o modelo tiver processador anterior à 8.ª geração Intel, porque não pode instalar o Windows 11.
Que processador deve ter um portátil recondicionado em 2026?
No mínimo um Intel Core de 8.ª geração — i5-8250U, i5-8365U, i7-8550U ou mais recente. O Windows 11 não suporta oficialmente processadores anteriores, e o Windows 10 deixou de ter suporte a 14 de outubro de 2025. Toda a faixa abaixo dos 230 € do mercado português é tipicamente de 6.ª e 7.ª geração, sem caminho para o Windows 11. Os quatro dígitos a seguir ao traço começam pelo número da geração.
Posso continuar a usar um portátil com Windows 10 em 2026?
Pode, mas com prazo. O suporte terminou a 14 de outubro de 2025. O programa de atualizações de segurança alargadas (ESU) estende as atualizações críticas até 12 de outubro de 2027 e, no Espaço Económico Europeu, a adesão é gratuita desde que mantenha a sessão iniciada com uma conta Microsoft no equipamento — se ficar mais de 60 dias sem essa sessão, a cobertura cessa. Depois de outubro de 2027, a alternativa é uma distribuição Linux leve.
Os portáteis recondicionados têm teclado português?
Raramente. Numa das maiores lojas do sector, de 760 portáteis recondicionados em stock, 13 tinham teclado português, 145 teclado espanhol e 602 teclado internacional — cerca de 1,7% em PT. É consequência de o stock vir de parques informáticos de toda a Europa. Verifique sempre a ficha do produto e desconfie da expressão “internacional com adaptação a PT”, que descreve um teclado internacional modificado e não um teclado português de origem.
Qual é a diferença entre recondicionado e usado?
O recondicionado passou por inspeção, testes e preparação de um profissional, é vendido declaradamente nessa qualidade e tem três anos de garantia. O usado é vendido tal como está: se o vendedor for um profissional, a garantia pode ser reduzida para um mínimo de 18 meses por acordo expresso; se for um particular, no OLX ou no Vinted, não há garantia legal nem direito de devolução.
O que significam os graus A, B e C nos portáteis recondicionados?
São classificações estéticas, não de funcionamento, e cada loja usa a sua. Em geral, o grau A ou “Como Novo” corresponde a marcas quase invisíveis; o grau B ou “Marcas Mínimas” a sinais residuais de utilização; o grau C ou “Sinais de Uso” a desgaste visível mas com todas as funções operacionais. Não existe uma norma legal: a DECO PROteste defende precisamente a criação de uma classificação europeia uniforme e verificável, que ainda não existe.
Que capacidade de bateria deve ter um portátil recondicionado?
O Back Market garante 85% da capacidade inicial nos MacBooks; a refurbed garante 90% no estado Premium e 80% nos restantes estados para portáteis e tablets. A maioria das lojas portuguesas não publica um mínimo. Quando receber a máquina, execute powercfg /batteryreport na linha de comandos do Windows para ver a capacidade atual face à de fábrica — se estiver muito abaixo do anunciado, tem 14 dias para devolver sem justificação.
Onde comprar portáteis recondicionados em Portugal?
Há três canais. Lojas especializadas portuguesas (Onbit, InfoComputer, BuyBack, EcoPC, Mister PC, PCDiga) têm normalmente os melhores preços em máquinas ex-empresariais. Grandes retalhistas (Worten Flippers, Fnac Restart) dão três anos de garantia sobre stock próprio e têm apoio ao cliente estruturado. Marketplaces internacionais (Back Market, refurbed) têm a maior escolha, sobretudo em Apple, mas o vendedor é terceiro e o pós-venda depende dele.
Posso devolver um portátil recondicionado comprado online?
Sim. O Decreto-Lei n.º 24/2014 dá-lhe 14 dias após a entrega para devolver sem justificação qualquer compra feita online. O Back Market, a refurbed, a EcoPC e a InfoComputer alargam o prazo para 30 dias. Se o portátil tiver um defeito nos primeiros 30 dias, pode exigir a substituição ou o reembolso imediato ao abrigo do artigo 16.º do Decreto-Lei n.º 84/2021, sem ter de aceitar reparação.
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Fontes
- Legislação e consumo: Decreto-Lei n.º 84/2021 (Diário da República), artigos 2.º, 12.º, 13.º e 16.º · DECO PROteste — Computadores recondicionados: vale a pena comprar? · DECO PROteste — Produtos recondicionados: faltam regras claras (janeiro de 2025)
- Condições das lojas (10/9/2026): Worten Flippers · Fnac Restart · Onbit — Garantias · InfoComputer — Condições de garantia · BuyBack — Garantias · EcoPC · refurbed — Estados do produto · Back Market — Bateria
- Windows: Microsoft — Fim do suporte do Windows 10 · Microsoft — Atualizações de segurança alargadas (ESU) · Microsoft — Processadores Intel suportados pelo Windows 11 · Microsoft Authorized Refurbisher (MAR)
- Reputação: Portal da Queixa — PCDiga · iServices · Tek4life · Onbit · Back Market
Preços e condições verificados a 10 de setembro de 2026 nos sites das lojas. Mudam com frequência e dependem do stock disponível — confirme antes de comprar. Este guia é informativo: não vendemos computadores e, à data de publicação, não recebemos comissões de nenhuma das lojas mencionadas. Se isso mudar, será indicado aqui.